As pessoas andam me perguntando se eu sinto a sua falta, se eu sinto falta de estar namorando. A resposta pra segunda vem fácil, não, eu não sinto. Acho que fiquei traumatizada, acho que o nosso relacionamento foi muito nocivo pra mim, e agora eu tenho um pouco de medo de me entregar daquela forma à alguém. Então não, eu não sinto falta. A verdade é que se passaram oito anos sem que eu estivesse solteira, acho que preciso disso, preciso aprender a estar sozinha e a apreciar a minha própria companhia.

A resposta da primeira é tão mais complicada. Eu acho que eu não sinto, e acho que isso é porque eu senti sua falta por tempo demais enquanto estávamos juntos. Eu sentia a sua falta quando estávamos lado a lado e você estava dando atenção pra uma tela qualquer, fosse do seu celular, do seu tablet ou do seu computador. Eu sentia sua falta quando você achava que só conversar comigo não era suficiente pra prender toda a sua atenção.

Eu sentia a sua falta nos fins de semana nos quais não nos víamos porque você estava estudando, e não era porque eu não entendia que você precisava, vamos lá, eu estudo medicina veterinária, eu sei o que é ter que estudar muito, mas eu também sei que a gente sempre para um pouquinho. Eu sei que dois finais de semana direto é demais.

Eu sentia a sua falta quando mandava uma mensagem e você levava mil anos pra me responder. Eu sentia a sua falta quando você me dizia que se eu estivesse em uma saída sua com os seus amigos, então não seria tão bom. Eu sentia a sua falta quando te pedia pra fazer passeios comigo que você fazia tão facilmente quando era do seu interesse, mas não quando era o meu.

Eu sentia a sua falta e todas as vezes que eu saia com os meus amigos e você não queria ir, em todas as vezes que eu estava com a minha família e você não queria ir. Eu sentia a sua falta quando você, que pegava o celular de manhã assim que acordava, era incapaz de me dar um “bom dia”.

Principalmente, eu senti sua falta nas únicas duas vezes que eu não respeitei o fato de que você odeia falar no telefone, porque eu estava precisando tanto de você, porque eu tinha acabado de viver situações horrorosas, mas você não me atendeu, pior que isso, você brigou comigo por ter ligado, nas duas ocasiões.

Acho que eu senti tanto a sua falta em todos esses anos, que agora nem sinto mais. Eu fui aprendendo a viver sem você, cada dia mais, até que um dia, eu só sabia viver sem contar contigo mesmo.

Parece que eu estou sendo escrota agora, parece que eu não dava nenhum valor pra todas as coisas que você fazia por mim. Mas eu dava, eu dava tanto, e reconhecia tanto o quanto você tentava que eu continuei ali, me convencendo que era suficiente, que aquilo tudo estava me consumindo todos os dias um pouquinho mais era maravilhoso. Eu me contentei com as migalhas que você me deu, porque eu sabia que aquilo era tudo que você podia me dar.

E isso me leva a segunda parte desse texto todo, que já está enorme, mas parece que eu sempre tenho tantas coisas pra dizer sobre isso, eu não consigo ficar quieta. Eu vivo dizendo que queria me desculpar por tudo, e eu nunca digo que tal tudo é esse, então aqui vai.

Eu queria dizer que sinto muito por ter demorado tanto tempo pra aceitar que nós acabamos, que não tinha mais jeito. Eu sinto muito por ter repetido incansavelmente que te amava demais, que te amava tanto que não podia sair do que nós tinhamos. Eu sinto muito por ter usado esse amor, essa dependência pra justificar o que eu estava fazendo.

Eu sinto muito por ter passado a mão na sua cabeça por tanto tempo, eu sinto muito por não ter te dito mais vezes que você estava doente, eu sinto muito por não ter insistido mais pra você ir pra terapia, eu sinto muito por não ter te pedido mais vezes pra ir num psiquiatra. Eu sinto muito por ter deixado você ir se afundando da forma que eu te vi se afundar.

Eu sinto muito por ter te visto mudar tanto e não fazer nada sobre isso. Eu sinto muito por nunca ter conseguido conquistar um lugar de confiança na sua vida, por mais que você sempre dissesse que eu tinha, no fundo, nós dois sabemos que não. Eu sinto muito por ter deixado as minhas dores, as minhas decepções se tornarem a única coisa entre nós.

Eu sinto muito pelo estrago que eu causei, por você ter descoberto as coisas de um jeito tão horrível. Eu sinto muito por ter sumido logo depois, mas eu juro, eu achei que esse era o melhor jeito. Eu sinto muito por ainda estar em silêncio, mas ainda acho que esse é o melhor, senão o único jeito. Eu sinto muito pelo que eu fiz.

Eu sinto muito por ter te tirado da minha vida, eu fui fazendo isso sem perceber, eu fui não te contando mais, eu fui guardando tudo pra mim. Eu não te disse como eu estava deprimida enquanto estávamos juntos, eu não te disse que fumava todos os dias pra esquecer, não te disse que bebia pra esquecer. Eu não te disse que aqueles caras eram um curativo no dano que você tava fazendo.

Eu sinto muito por não ter te dado a chance de consertar as coisas, mas isso foi só porque eu já tinha te dado tantas chances, tantas que eu nem conseguia mais dar nenhuma.

Mas principalmente, eu sinto muito por ter precisado chegar no fim da linha, pra aceitar que não dava mais. Eu sinto muito por não ter deixado tudo como estava na primeira vez que terminamos. Eu sinto muito pelo que você disse ter se tornado realidade, “vamos terminar antes que o amor se torne ódio”, e afinal, se tornou.

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Lágrimas

Eu não percebi que estava/estou tão necessitada de um abraço até o sonho que tive essa noite. Eu sonhei que alguém, não sei quem, aparentemente era a pessoa certa, me abraçava forte, fazia carinho na minha cabeça e dizia: tudo vai ficar bem. E eu chorava, chorava com há algum tempo não choro, chorei tanto naquele sonho que acordei com lágrimas no rosto.

Há 3 meses eu não derramo uma lágrima sobre tudo aquilo, não conscientemente, não fisicamente. Mas eu sinto essa tormenta crescer em mim todos os dias, ocupar tudo, forçar saídas e ainda assim, só se debater. Porque eu não quero quebrar.

Isso foi bobo. Quebrada eu estou, mas ainda inteira, pedacinhos montados se sustentando. No momento em que eu me permitir romper, não sei por quanto tempo ficarei rompida, não sei quando vou levantar. É tão frágil, tão sensível… tanto que todos os dias meus olhos transbordam, mais de uma vez por dia, qualquer coisa é suficiente pra me desestabilizar.

A grande tragédia nisso tudo (a mais nova, no caso) é que agora estou me sentindo órfã daquele abraço do meu sonho, o abraço que me permitiu romper sem despedaçar, e que agora, as lágrimas estão ainda mais perto da saída, o que significa que eu não sei por quanto tempo mais posso resistir .

A piada do universo

Coisas estranhas tem acontecido ultimamente. Eu estou tentando seguir com a minha vida do melhor jeito possível, jogando as coisas lá pro fundo do armário, só pra evitar pensar, evitar ter que sentir. Mas o destino tem outros planos pra mim, as coisas mais esdrúxulas tem me lembrado você.

Eu fui no McDonalds e uma pessoa pediu nuggets, sério, você é a única pessoa no mundo que vai no McDonalds pra comer nuggets, eu achei que foi um tipo escroto de piada do universo. Eu fui ao cinema, e só podia ser no Downtown, me perguntei de onde saiu essa condição louca, que só fez eu me lembrar de você reclamando loucamente de ir até lá.

Daí, eu fui pro Aterro do Flamengo, andar de patins. Pelo tipo de passeio e pela localização e eu sabia que era inevitável lembrar de você, mas o dia conspirou pra que além de tudo eu passasse em frente ao seu prédio. Eu senti um pavor indescritível, pensando que talvez, só talvez eu batesse no seu carro – que tipo de pessoa louca raciocina uma coisa dessas?

Hoje, indo pra faculdade, passei em frente ao CT. Nós passamos quase cinco anos juntos e eu nunca na vida passei em frente ao CT, mas hoje, passei. Foi horrível, porque eu olhei pela janela e vi que eu podia, por um acaso louco, estar a poucos metros de você. O nome do meu instrutor de Muay Thai é o mesmo que o seu, e toda vez que eu preciso me referir a ele ou falar com ele a minha voz parte no meio, como se eu estivesse falando sobre algo proibido.

Minha playlist tem insistido em tocar RHCP, e cara, eu nunca ouço, por que isso tá acontecendo? Alguém zoou com o algoritmo do Spotify? Não para por aí não, no fim de semana eu viajei, adivinha em que rua eu passei? Na da casa dos seus avós. E ontem, minha mãe levanta o telefone e diz “olha quem tá aqui”, era uma foto sua com a sua mãe. Eu chorei… pateticamente eu fiquei sentada ali chorando.

E eu não aguento mais! Eu preciso de um tempo de tudo isso, preciso ir pra um lugar pra onde nunca tenha ido, preciso remover todos os estímulos que me lembram você, eles estão me enraizando no mesmo lugar, me consumindo, transformando meus dias em um pesadelo. Eu só quero um pouco de paz, um sossego. Tudo acabou, desmoronou e eu tô carregando pedrinha por pedrinha embora, limpando a bagunça, eu não preciso que as coisas fiquem me enterrando ainda mais.

A culpa

É estranho, eu preciso dizer, mais que isso, preciso ser ouvida, preciso que alguém me entenda. Eu estou com muita raiva. Raiva de mim, raiva do mundo. E eu percebi que estou assim há algum tempo, esse tem sido o meu combustível, minha motivação, e provavelmente o motivo de muitos dos meus erros.

Eu não consigo me perdoar. Isso é tão terrível, compatível com o que eu fiz, mas terrível. Acho que ninguém nunca vai poder aliviar a culpa que sinto sobre isso. As pessoas ficam repetindo que por mais que tenha sido errado, ele também fez coisas erradas demais, suficientes pra justificarem minhas decisões.

Não foram, não são, nunca serão. Tinha tanto que eu podia ter feito, e eu fiz o que era mais fácil, eu fui covarde. Eu queria que ao menos houvesse um jeito de explicar isso, e aí, volto ao início, a querer que alguém me entenda, mas só eu sei o que eu senti, só eu sou capaz de enxergar aquilo. E por mais que tenha sido errado, foi o melhor que eu consegui fazer.

E eu sinto tanto.

Todos os dias eu acordo e vou dormir com a mesma culpa me consumindo, me corroendo por dentro. Eu já senti muitas coisas, já sofri de várias formas diferentes, mas essa é uma dor completamente nova, e eu não sei como fazer pra curá-la. Eu queria acreditar que posso pedir perdão, e que se ele me perdoar isso vai melhorar… mas eu sei que não vai, porque ninguém no mundo me despreza mais do que eu mesma, ninguém me condena mais do que eu mesma.

Mas eu ainda sinto tanta raiva. No fundo, eu também o culpo. Isso é tão egoísta, me faz querer quebrar coisas, chorar, desabar. E ainda assim, muitas vezes eu me pego remoendo como ele me quebrou, me arrasou, me deixou de lado, não fez questão de mim, como ele disse todas as coisas erradas, como ele deu pouco valor a tudo que eu abdiquei por ele.

Então assim fico nesse impasse, nesse limbo horroroso. Desejando que ele nunca tivesse feito tudo aquilo, que eu nunca tivesse feito tudo aquilo. Eu estou magoada, por ter sido magoada e por ter sido capaz de magoar tanto.

Eu só sinto tanto, e eu queria que ele soubesse disso. Queria que ele soubesse que eu não saí disso caminhando glamurosa, incólume e feliz. Eu não posso dizer nada além disso, nada nunca será suficiente, e ainda sim queria que fosse.

sobre ele

♪ Little do you know
I’m still haunted by the memory

Underneath it all I’m held captive by the hole inside
I’ve been holding back
For the fear that you might change your mind ♫

Eu vou dizer umas coisas que nunca disse. Não sobre essa história em especial, não pra ele ou sequer pra mim. Acho que evitei tudo isso, construí um muro em volta e fingi que ele era suficiente. Agora parece que as barragens da represa se romperam e tem esse monte de água inundando tudo.

Há mais de um ano eu venho lidando com isso porcamente, e sinceramente? Eu cansei! Preciso colocar essa merda toda pra fora antes que comece a me sufocar, ou melhor, antes que termine de fazer isso.

Ele me ganhou no “se eu te beijar agora, vou estragar tudo?”. Essa lembrança sempre coloca um sorriso no meu rosto, porque na ocasião eu disse que não, e a gente se beijou – como as coisas se estragaram depois nenhum de nós podia prever. Ele me ganhou mais um pouco no dia que disse “eu te adoro” e eu fiquei desesperada porque não sabia o que fazer com isso. Ele me ganhou com me pedir pra deitar em cima dele, e até as minhas pernas precisavam ficar equilibradas em cima das dele, eu nunca fiquei tão confortável de um jeito tão desconfortável.

E eu me apaixonei. Talvez eu me apaixone fácil, mas não foi fácil pra mim. Eu não esperava nada disso, quer dizer, eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo. Só teve aquele dia que eu falei com ele, depois de termos passado a infância brincando e a adolescência sem trocar uma palavra, e eu não sabia o que eu estava fazendo mesmo. Quando dei por mim, nos falávamos todos os dias, e eu esperava ansiosamente o dia que ele ia voltar “pra mim”.

Aliás, teve uma ocasião especial que me fez perceber que eu estava apaixonada. Eu estava no ônibus voltando pra casa, eram dez da noite, morta depois de ter passado quatorze horas na faculdade, muitas delas no anatômico decorando uma infinidade de nomes. Aí ele disse: to no ônibus também. E eu: ué, a essa hora? E ele: to chegando no Rio. E de repente eu não estava mais cansada e sim com uma animação besta que não me permitia parar de sorrir.

É tão estranho pensar nisso agora, porque eu consigo enxergar claramente tudo que aconteceu, mas na época eu não fazia a mais remota ideia. Porque eu amava outra pessoa, mas era apaixonada por ele, e tudo isso parecia ser tão absurdo. Eu fui muito teimosa, eu não tive coragem. E eu me escondi atrás de uma besteira, eu dizia: eu não posso trocar uma pessoa por outra, eu preciso fazer isso por mim, só por mim e mais ninguém. Naqueles dias não percebi que o quer que eu fizesse era por mim.

Sendo bem sincera, eu esperava que um dia ele me dissesse: fica comigo! Acho que não me ocorreu como é difícil pra alguém dizer uma coisa dessas, e como eu poderia ter detestado ele se realmente tivesse acontecido. Mas, ainda assim, eu quis que ele fizesse a escolha por mim. Por outro lado também, ele nunca foi exatamente um livro aberto sobre os sentimentos dele, então eu tinha medo, era um medo egoísta, reconheço, mas não pude me impedir de senti-lo. E no final, a verdade é que a única que se apaixonou foi eu, ele passou por isso incólume, então é óbvio que ele jamais diria qualquer dessas coisas… eu me iludi, acho que é o que apaixonados fazem.

O que nós dois vivemos naquele ano foi indescritível. E não, nós nem tivemos muitos momentos juntos, acho que foram só uns sete dias – ao longo de um ano. Isso é o mais surreal de tudo, como eu fiquei desse jeito com sete dias? Devem ter sido sete dias incríveis. Ou talvez tenham sido todos os outros, de conversas intermináveis, que me mostravam o tempo todo que ele era maduro e centrado, e eu era louca e descontrolada.

Mas aí veio aquele dia estranho, um dia quando estávamos na mesma porcaria de estado, mas nunca pareceu que estávamos tão distantes. O dia que ele me disse que ia começar a namorar. E pra começar a explicar o que eu senti, precisei de um outro ano inteiro. Eu aprendo devagar, isso é certo.

Naquele dia eu perdi algo que eu nem tinha de verdade, e naquele dia eu percebi o tamanho da minha estupidez, o quanto eu estava irremediavelmente apaixonada, nossa, foi ali que eu percebi que eu tinha andado sozinha achando que estava com ele. Parece clichê, mas quando eu li aquelas poucas palavras, foi como se alguém tivesse tirado o chão debaixo dos meus pés, como se todo o ar saísse dos meus pulmões e eu nunca mais fosse conseguir respirar de novo. Eu senti um tipo completamente novo de desespero. E aí eu chorei.

Nem sei o que eu esperava. A gente nem tinha um relacionamento, ele nem podia se dar ao luxo de sentir ciúmes de mim, nas palavras dele “eu nunca pensei que você ficaria comigo”. Mas com certeza eu não esperava o que houve depois, a gente saiu da vida um do outro, e nas poucas vezes que a gente se falava só me machucava, eu não entendia – ou melhor, não aceitava – porque eu não podia ter tudo o que a gente tinha antes. E eu fiquei tanto tempo tentando achar alguém que pudesse preencher aquele espaço que ele deixou. Seria um final feliz se eu dissesse que achei? Mas não, nunca achei.

Eu ainda sonho com ele, e quando eu acordo, estou sentindo aquele mesmo vazio que senti quando tomei conhecimento de que ele amava outra pessoa. Parece sempre que não se passou um dia. É assim que eu estou hoje, porque sem aviso, sonhei com ele.

Ah, é claro, teve o sétimo e último dia (o dia que nos vimos depois de eu já saber que tinha acabado). O dia de dizer “adeus”… não tenho nenhum recurso literário que possa exprimir corretamente a sensação que tenho quando lembro dele. Aqueles que já disseram adeus pra uma pessoa que amam devem conseguir imaginar. É como estar na presença de um fantasma, você vê, mas não há maneira de estarem mais inalcançáveis, porque tudo que ligava os dois foi apagado. Olhando pra trás, não sei como fiquei inteira. Eu não lembro nada do que eu disse. Eu não me lembro como me obriguei a não chorar. Não faço ideia de como não me agarrei nele e esperneei que aquilo tudo tava errado. Muito errado.

É quase poético que o “relacionamento” que começou com uma permissão pra um beijo, tenha terminado comigo sem poder encostar nele. É quase poético que naquele dia estivesse chovendo. Não foi poético eu passar pelo meu portão, desabar, e chorar por uma hora sem conseguir sair do lugar.

Tudo isso é pra dizer que eu cansei de sofrer por isso, pra não falar mais desse assunto, porque às vezes eu tenho a sensação de que não fui clara o suficiente. E principalmente, porque eu finalmente percebi que ele nunca se deixou sentir essas coisas, só que eu senti e foi lindo enquanto durou, mas se acabou eu não quero mais pensar, como ele disse, que aquele pode não ter sido o último beijo.

A noite

Era uma noite perfeita, não poderia se dizer mais ou menos dela. Havia uma brisa gélida correndo, que parecia abraçar cada uma das coisas ao redor, como se quisesse mantê-las juntas, íntegras. Naquela brisa fria era possível se sentir completamente confortável, ela era a dona daquela noite e a estava compartilhando com quem quisesse aproveitar.

Havia a luz tênue da lua. Como eu disse, aquela noite pertencia a brisa gelada, a própria lua reconhecia isso e não pretendia competir com ela. Mas estava lá, no auge de sua humildade, iluminando suavemente a noite, com seu toque leve, aveludado, mais antigo que a própria vida. A lua, tão cheia de poder, também estava sendo generosa e cedendo o seu brilho para a noite.

O céu estava limpo, não havia nuvens, havia, no entanto, um número estarrecedor de estrelas. Elas estavam lá como pequenos furos no tecido que era aquela imensidão arroxeada. Eu não sei ler as estrelas, mas se eu soubesse, tenho certeza que elas estariam contando um número infindável de histórias, quase tantas quantas as próprias estrelas daquele céu.

E lá também estava presente o silêncio. Um silêncio tão profundo que quase chegava a ser barulhento. Se alguém estivesse prestando atenção, teria percebido que havia desprendimento também naquele silêncio. Ele estava presente pra que cada coisa, no fundo de sua natureza, pudesse se ouvir. Ele era tão impenetrável que o mundo estava suspenso, como naquele pequeno intervalo, entre a inspiração e a expiração, em que tudo fica pausado, esperando o próximo acontecimento.

E por fim, havia aquela mulher. Diante de toda a grandiosidade da brisa, da lua, das estrelas e do silêncio, ela se sentia minúscula, desprezível, insignificante. Mal sabia ela que todas aquelas coisas a apreciavam porque ela as estava apreciando de volta. Ela estava sentada sozinha, na madrugada avançada, experimentando uma sensação que levaria muito tempo pra voltar a experimentar… no turbilhão de pensamentos que a inundavam, havia semanas, meses, anos, ela encontrou um momento de quietude, ela encontrou o suspiro do tempo.

O tempo, que naquela noite tão perfeita decidiu parar, ainda que por alguns segundos, se dando a chance de apreciar ao invés de apenas passar.

Os anos

Talvez eu só esteja muito emotiva e nada disso tenha sentido, mas espero que não seja o caso, porque estou bem cansada de não entender o que está acontecendo, justamente por conta das minhas emoções bagunçadas. Hoje eu tenho esperanças de que, apesar de tudo, eu esteja seguindo uma linha de raciocínio coerente.

Passei as últimas semanas tentando descobrir onde as coisas começaram a dar errado. E eu voltei no tempo, e continuei voltando, e fui mais um pouco ainda. Voltei seis anos. Sendo bem sincera, eu esperava ter encontrado o erro antes, me decepciona notar que eu levei seis longos anos pra perceber que as coisas estavam tomando rumos bastante equivocados.

Eu não considero que tive uma adolescência conturbada, principalmente porque fui uma daquelas pessoas cheias de convicções fortes demais para serem corretas quando vindas de uma pessoa com tão pouca experiência de qualquer coisa. É um palpite, mas acho que quando você é obrigado pelos pais a estar em casa às dez da noite, conhecimento consistente de vida não é uma coisa que você adquire. De uma maneira ou de outra, pelo bem ou pelo mal, essas convicções me ajudaram um pouco a passar por essa fase cheia de dúvidas com um pouco menos de desespero. Foi ali, dos 14 aos 18, eu sabia o que eu queria, quem eu era, ponto final.

Ser solta no mundo de verdade foi que começou a bagunçar as coisas, até ali eu tava só tirando pequenas provas da vida. É uma comparação meio ridícula, mas sinto que até os 18 eu tava jogando aquela versão free, e depois eu comprei o jogo e percebi que, porra, tinha muito mais coisa pra fazer que eu nem tinha me dado conta. Foi mais ou menos nessa época que as minhas convicções me abandonaram, eu deixei de ser um copo cheio e deixei as experiências me ensinarem.

Aos 18 eu cometi meu primeiro erro sério. Eu mudei quem eu era por alguém. Não sei, as pessoas por aí falam sobre esse assunto como se fosse realmente muito nobre, como se fosse o esperado você mudar por alguém. Atualmente, não acho que seja. Eu entendo as concessões que fazemos pra estar com alguém, entendo a ideia de se adequar. Mudar não, as pessoas são o que são, e se não podem estar ao lado de alguém por isso, então elas realmente não deveriam estar lá.

Então sim, ao 18 eu mudei. Eu me deixei ser emocionalmente dependente de alguém. Até aquele momento eu era inteira, e me sentia completa comigo mesma, tão completa que na maior parte do tempo eu não queria ninguém se intrometendo nos meus assuntos. Eu não entendia a solidão até então. E aí, porque o cara por quem eu estava apaixonada era o sujeito mais carente que a humanidade já conheceu, eu mudei. Ele não estava feliz comigo, porque eu dificilmente me dispunha a estar com ele. E eu já tinha tentado não estar com ele algumas vezes, também não rolava, foi aí que eu pensei que talvez o erro estivesse em mim.

É muito fácil depender de alguém. Nossa! É absurdamente fácil. Eu doei tudo de mim pra ele, cada segundo que eu tinha livre era dele. Aí ele decidiu que estava sufocado, é, pode rir. Foi desse jeito que eu descobri que não adianta você mudar por ninguém. Foi desse jeito também que eu descobri a solidão. Eu descobri que a solidão é um estado de espírito, ultrapassa o sentido físico da palavra, porque quando você se sente verdadeiramente só, não importa quantas pessoas estejam ao seu redor. E quando ele saiu da minha vida, foi assim que eu me senti, total e completamente abandonada. Provavelmente foi mais aterrador porque no meio do caminho eu perdi um pedaço de mim, de quem eu era. Eu estava só porque também estava sem eu mesma. Guarde isso! Passaram seis anos, eu ainda não estou completamente curada disso. Se você decidir mudar por alguém, pense muito bem no tamanho da violência que está cometendo contra você, porque a gente sempre se recupera de perder alguém, a vida é assim mesmo, mas pra se recuperar de perder a você mesmo… Isso é um processo lento e doloroso.

Pra reparar esse erro, eu cometi um bem mais longo, um que durou quatro anos. Eu procurei alguém pra afugentar a solidão, eu me agarrei a isso com muita força. Mas as vezes se agarrar a uma coisa não quer dizer perseverança, quer dizer teimosia. Eu vou ser muito sincera aqui, o amor que eu sentia era grande demais, eu não entendia, não sabia lidar, até hoje eu não sei, mas agora eu pelo menos entendo. Amar demais uma pessoa que não te faz bem é nocivo, te corrói por dentro. Porque eu sabia que tava tudo errado, eu sabia que não era pra ser difícil daquele jeito, que não era pra eu sofrer tanto, não era pra eu ter que me esforçar tanto.

Foi nessa época que eu descobri um segundo tipo de solidão. Estar só dentro de um relacionamento. Isso é mais que um estado de espírito, é um fardo que você carrega o tempo todo, porque você percebe que ninguém pode preencher o que falta em você, e mais, percebe que estar com uma pessoa e ter uma pessoa que seja sua companheira são coisas completamente diferentes. E eu passei anos tentando compensar isso. Eu quis fazer qualquer coisa pra compensar o que me faltava, porque eu tinha quase certeza que era pro amor ser suficiente.

Passei os últimos dois anos batendo cabeça nessa confusão. Eu esbarrei com um monte de gente que queria ocupar o espaço que ele não ocupava. Mas no fundo, mesmo que ele não tomasse como dele aquele lugar, ele o pertencia, e ninguém jamais conseguiria toma-lo, não enquanto eu não abrisse mão de guarda-lo com tanta força. Foram dois anos absurdamente difíceis. Eu abusei de mim, do que eu sentia, do que eu era capaz, do que eu podia. Na verdade, eu descobri que eu podia qualquer coisa que eu quisesse. E eu me joguei de cabeça.

Eu tive a sensação de estar conquistando o mundo, mas na verdade era só o mundo me engolindo mesmo.

Não mais.

Nos últimos cinco meses eu finalmente decidi que era hora de colocar um fim naquilo tudo. Sabe o amor? Ele não é suficiente, nem de longe.

Eu saí disso tudo cheia de cicatrizes, aliás, eu ainda tenho várias feridas abertas. E só eu sei quanto dano eu causei também, em um monte de gente. “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” e eu vou te dizer, eu fui bem negligente com o que eu cativei.

O saldo geral dos últimos seis anos computa: eu perdi uma parte de mim, eu dei partes de mim, eu me magoei, eu magoei de volta, eu cometi um monte de erros, eu tenho um monte de culpa com a qual lidar. Mas mais importante que tudo, eu cresci e amadureci.

Saí dessa confusão toda tendo aprendido a me respeitar, a me amar, a pensar um pouco antes de agir, eu reaprendi como estar só, sem me sentir sozinha. E com o tempo eu vou recuperando aquele brilho de uns anos atrás, afinal, como dizem, não há mal que sempre dure.