Sete vidas

Há quanto tempo eu não escrevo? Não sei… Andei trilhando por outros caminhos, explorando novas estradas, desvendando novos mistérios. E nessa jornada, eu esqueci que me dedicava a isso, eu ignorei essa parte pulsante como se ela pudesse ser desprezada. Ela não pode, ela é minha válvula de escape, meu caminho pra sanidade, é a resposta para perguntas que eu nem sabia que tinha.

Passei os últimos meses acreditando que tinha me encontrado, e não deixei de me encontrar, de certa forma. Mas eu também me perdi muito, me perdi dentro de mim, e como só eu posso dizer, sou feita de caminhos confusos, labirintos intermináveis, becos se saída, saídas que me impulsionam só para mais fundo…

Eu estou com medo agora.

As coisas estão explodindo, numa velocidade muito maior que eu consigo conter, meus pensamentos estão correndo mais rápido que posso transcrevê-los, e não há sequer um vislumbre de perguntas ou respostas. Há apenas a repetição insana, porém sempre fantasiada, de um mesmo caminho, um mesmo destino.

Talvez eu me jogue nele de cabeça, talvez eu me deixe cair por confiar que alguém vai me segurar. Ou talvez eu já esteja caindo, acreditando piamente que meus pés estão fixos no chão, mas, se eu estou caindo, será que alguém vai aparar o estrago? Será que eu mesma conseguirei fazer isso? Será que meu pouso será seguro? Ou que eu cairei, e como um gato, terei apenas gastado uma das minhas sete vidas?

Cair e levantar. Cair e levantar. Se reerguer, ontem, hoje e sempre.

Aliás, talvez eu só precise parar de me afundar ainda mais no mesmo buraco, talvez isso seja levantar o suficiente, talvez seja o passo inicial. E aí ao invés de cair, eu poderei, finalmente, voar.

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Sobre um futuro

Em meros 20 ou 30 minutos – quem sabe em 24 horas, ainda acho que houve um lapso temporal naquele momento – eu tive uma das conversas mais complicadas dessa minha curta vida. Eu discuti ali, caminhando na beira da praia, sem nenhuma preparação – emocional, psicológica, e recapitulando, nem mesmo física – uma separação. É complicado isso, uma despedida “agendada”, saber que alguém que você ama vai partir por um tempo, e que você não faz ideia do que esse tempo pode fazer.Um ano em duas vidas. Sou a prova viva de que apenas um minuto muda tudo, não gosto de ampliar isso pra um período de tempo tão extenso. Já havia pensado sobre isso antes, e tanto lá, quanto hoje, me perguntaram o mesmo: o que você vai fazer?

*suspiro profundo*

Eu vou torcer daqui para que tudo dê certo, para que seja uma experiência excepcional, para que seja uma daquelas coisas que quando olharmos pra trás poderemos dizer: é, foi foda. E tudo isso vai ser profundamente sincero, porque é uma oportunidade incrível, dada à alguém que eu admiro e amo profundamente. 

Por outro lado eu vou sofrer muito. Sofrer a separação, as saudades, o medo inicial de como tudo vai mudar. Eu vou sofrer do jeito que já conheço, e depois, devagar, o sofrimento vai passando e a vida vai se encaminhando, com aquele consolo de que, do outro lado, alguém tá fazendo algo maravilhoso, e que talvez eu também esteja. 

Depois daquela conversa eu não pude desabar como uma parte de mim pedia. Eu quietamente derramei umas lágrimas no escuro e depois me levantei, como se nada daquilo tivesse acontecido. Agora eu tive a minha primeira real oportunidade de pensar sobre isso e chorar de verdade, estravasar a dor antecipada que me atingiu só de pensar nisso. É a tristeza mais esquisita que eu já senti essa, porque eu não acho justo me permitir ficar triste por isso, meio absurdo, egoísta, mas é uma coisa involuntária são duas partes de mim e conflito.

Mas esse momento, esse pacote emocional precisava ser posto pra fora, porque aqui está um plano para o futuro, e com ele tenho que me preocupar só amanhã.

Segredos de um amadurecimento conturbado

Quando eu entrei pra faculdade, quatro anos atrás, uma menina de 17 anos, achei que era aquilo, eu era definitivamente uma adulta. A parte engraçada é que a gente nunca sabe quantas coisas temos pra viver enquanto achamos que já sabemos de tudo. E sempre foi assim, antes dos 17 e após, até os 19.

Antes disso, tudo na minha vida era como um conto de fadas, uma história de livro infantojuvenil. E pior, sobre uma menina meio introvertida que levou mais tempo que todo mundo para fazer tudo aquilo que a maioria já havia feito. E pra mim era comum, porque a vida era assim no meu círculo de amigos.

Naqueles mesmos 17 eu comecei a sentir que tinha coisa demais não vivida. Não era que eu não soubesse sobre elas e suas consequências, era que eu não sabia como era viver aquelas coisas, e isso, aaaah isso, me corroía por dentro.
Num rompante entre meus 17 e 18 eu quis recuperar tudo, fazer tudo, viver aquelas coisas todas. Hoje ainda eu sofro as consequências das coisas que eu não vivi, e acabo por uma teimosia sem fim fazendo só para ter a experiência. Porque a verdade é que uma história contada por terceiros nunca será uma experiência. Um exemplo, um material de consulta, quem sabe, mas nunca uma história sua, com resultados seus.

Eu tenho uma amiga que também não viveu as coisas, mas ela é diferente de mim, em tudo, e talvez a coisa que mais marque a nossa diferença seja isso: eu fui atrás das minhas histórias, ela vive as dos outros. Talvez por isso ela seja mais bem sucedida que eu, ela não usou o tempo dela pra pequenas coisas passageiras, ela dedicou tudo a coisas realmente produtivas. Mas eu não trocaria de lugar com ela, nem por um segundo. Ela tem esse hábito engraçado de começar uma história dizendo: “Uma amiga minha…”, e aí vem a história de alguém, de quem ela supostamente tirou uma experiência, mas a verdade é que sempre que alguma coisa nova acontece, ela vem me perguntar o que fazer. Também pudera, quem imaginaria que viver uma coisa é tão mais complexo que analisar friamente de fora? Aos poucos eu tenho certeza que ela também descobrirá isso, mas espero que use sua sensatez, maior que a minha, para viver o que surge e não sair por aí procurando as loucuras dessa vida.

Lembro de um dia em que consegui convence-la de matar a aula e ir comigo para a casa de um amigo nosso. O fato é que, seríamos quatro pessoas, dois casais. Aquilo a apavorou de um modo que eu jamais poderia descrever. E até hoje, ela fala daquilo como se fosse a coisa mais louca do mundo, quando na verdade, foi apenas inconsequente. Desde aquele dia eu me empenhei em acumular histórias para contar pros meus netos – nunca vou contar essas coisas pra eles, mas vou contar pra alguém, e isso de certa maneira é muito valioso.

Memórias, nosso bem mais precioso. Partilhar memórias, o modo mais correto de expressar que confia em alguém.
Sobre memórias eu também notei que com o passar do tempo começamos a guardar segredos. Memórias que se tornam segredos e segredos que se tornam memórias – irritantes, presentes, ativas, porém memórias. Meu primeiro segredo foi aos 7 anos, meu primo me beijou debaixo da cama, minha mãe viu. Aquilo foi tão embaraçoso que se tornou uma memória que eu finjo não ter, mas na verdade, é só meu segredo mais antigo e empoeirado. A partir dali as coisas simplesmente foram se acumulando. Os segredos se tornaram coisas mais sérias. Quer saber uma coisa sobre segredos? Não os tenha.

Acho que ninguém planeja isso, mas meio que faz parte de crescer. As coisas que você vive acabam se tornando muito suas, as vezes muito sérias, muito complicadas, e você para de compartilhar com todos. E de repente, você passa a compartilhar pedaços com uns e não com outros, com outros e não com uns. Costumo dizer que para me conhecer de verdade seria preciso juntar todos aqueles que me conhecem e mandá-los despejar tudo o que já lhes contei. E eu odeio isso, apesar de essa ser a minha maior proteção. É só que, as vezes, eu queria que todos os segredos fossem embora, que eles não pesassem sobre mim cada vez que olho nos olhos de alguém.

Você diria: então conta tudo! – Eu não posso. Esse é um outro problema dos segredos, para se sustentarem, as vezes são envolvidos em meias verdades, que nada mais são que mentiras. E acho que ninguém no mundo gosta de saber que foi “enganado”, por mais que você tenha uma explicação perfeita, por mais que tudo possa ser justificado. E então os segredos ficam, cada vez mais profundos, mais antigos, menos acessíveis aos outros, mais pesados para você mesmo.

Toda essa volta porque eu queria dizer que no fundo, a gente nunca vai crescer o suficiente, nem viver o suficiente. Nunca seremos perfeitos, nunca seremos completamente transparentes. Logo ali, no fim da rua, tem algo completamente novo te esperando, e em coisas novas todos nós temos a mesma experiência. Amadurecer é parte de um caminho longo e tortuoso, que primeiro te mostra que você foi um adolescente idiota (como todos os outros), e depois que esse é um processo eterno, que te obrigará a deixar coisas para trás e a manter outras para sempre, até quando isso não for a sua vontade.

Então estou aqui com uma vontade insana de chorar, de contar tudo o que está acontecendo e aconteceu para alguém. Querendo muito que essa pessoa não me julgue, que não diga nada, que não espere nem cobre nada, eu só quero que ela me olhe nos olhos e diga: Vai ficar tudo bem! – e eu espero que essa seja a melhor mentira que jamais vou ouvir.

Um alívio

Esses dias me perguntaram como eu consigo conviver com o fato de depois de mim você ter estado com mais alguém, como eu consigo depois de eu ter estado com mais alguém. Achei uma pergunta meio besta. Difícil não é conviver com saber que depois de mim você falou com outros alguéns, desejou outros alguéns, tocou, etc… Difícil mesmo seria não conviver com você. Se me incomoda? Sim, é óbvio que sim, mas em comparação ao incomodo daquele infernal um mês e meio, nada no mundo seria insuportável.

Pareço muito dramática?! É estranho porque você me disse que o problema não era não ser meu namorado, o problema era não poder falar comigo. Tenho vontade de te socar todos os dias por isso. Mas tenho ainda mais vontade de te beijar porque quando você me diz as coisas que eu não quero ouvir, sei que você está sendo completamente sincero comigo, e isso é tudo o que eu poderia desejar. Na realidade que eu vivo, com as pessoas que estão a minha volta, a verdade anda meio em baixa, quase nunca dá as caras. E todas as suas verdades, por mais que me deixem louca da vida na hora, me deixam muito aliviada depois. confiar em você. o maior alívio dos meus dias.

Eu te amo. E essas três palavras não chegam nem remotamente perto de exprimir com precisão o que eu sinto por você, mas são as que eu tenho.

Vazio

Está vazio por aqui. E eu nem estou falando da casa, que definitivamente que fica bem vazia só comigo passeando pelos cômodos, estou falando de mim. Eu tenho muito medo da solidão, isso é completamente certo sobre a minha personalidade, acho que é uma das poucas coisas que posso afirmar sobre mim. É engraçado, porque eu precisei ficar realmente sozinha para entender finalmente que a solidão não é um estado, é um sentimento. Estar só é um estado, se sentir só… isso é apenas sobre você mesmo.

Algumas semanas atrás tive essa conversa numa madrugada. Ele disse: o calor é psicológico. Eu disse: não, o frio é psicológico, o calor é completamente real. Ele me perguntou o por quê, e eu toda cheia de mim disse que o frio era a ausência do calor, portanto, não existia. E bem assim, nas altas horas daquela noite ficamos discutindo o que era o que o não era psicológico, fisiológico, e mais uma vez, como em muitas outras, ele ganhou a discussão. Na hora ele não me convenceu, mas enquanto eu estava escrevendo aquele primeiro parágrafo eu vivi a realidade da argumentação dele.

Sozinho no meio de uma multidão, parece absolutamente relevante agora. Ficar horas e horas em silêncio, tendo apenas a mim para consultar, para conversar, para compreender me mostrou um monte de coisas sobre mim que eu jamais havia percebido. Eu aprendi a apreciar estar só comigo, a me apreciar num geral. Quer dizer, eu sou uma pessoa legal, carente, boba – boba definitivamente, dancei feito uma louca na sala ontem só porque pareceu uma excelente ideia -, não tenho medo de escuro, até que sei cozinhar…

Estar aqui sozinha me mostrou que as coisas que eu fico procurando tanto, querendo tanto, já estão aqui. Não das pessoas que eu queria, mas estão aqui à maneira delas. Eu me senti muito sozinha nos últimos tempos, e isso pode até ser real, pode ser que não hajam muitas pessoas por aqui comigo, mas a verdade é que eu me basto, e se alguém quiser bastar ao meu lado, ok, se não, tudo bem também.

Sobre não saber

Eu já não sei. Acho que nunca soube, mas hoje sei um pouco menos.

Eu não quero uma placa reluzente, nem uma medalha brilhante, não sou do tipo que espera grandes gestos que demonstrem reconhecimento, até porque, para mim, o verdadeiro reconhecimento aparece nos gestos mais simples, que parecem mais dispensáveis e que na realidade são os mais espetaculares.

Eu não espero ser divulgada para o mundo através de uma mudança de status, eu não quero sair por aí ostentando um pedaço de metal no dedo que diga que há um compromisso em algum lugar da minha vida. Eu não espero declarações de amor, não espero cartas de amor, não espero aquele antigo romantismo empoeirado. Minhas expectativas estão tão baixas que eu não espero sequer uma foto.

Mas eu espero, e continuo esperando, e provavelmente continuarei esperando por muito tempo, aqueles reconhecimentos pequenos, suaves. Eu espero que se faça questão de mim, que se faça um esforço por mim, espero ser apresentada, ser valorizada por quem eu sou, pelas minhas tentativas… E bem lá no fundo, eu não espero nada, porque esperança causa muita frustração e eu já tenho vivido frustrações o suficiente.

Devaneios de uma madrugada abafada

Eu gostaria de poder simplificar as coisas. Todas elas. Queria que a vida fosse mais simples de viver, que os sentimentos fossem mais fáceis de entender. Eu queria que eu fosse alguém mais simples. Mas eu não sou. Determinadas pessoas e situações são capazes de me deixar ainda mais complicada. Isso faz sentido? Tem uma parte de mim que se transforma, que perde a leveza, a facilidade e a bendita simplicidade. Algumas coisas engatam em mim o modo muitas perguntas, muitas incertezas, muitos ses e muitos talvez. Eu não gosto desse lado. Eu não gosto de ficar aparentemente fora do meu controle, do que fazer, como fazer, onde, quando, porque, com quem. O problema não é me justificar, tenho facilidade com isso, dar satisfações, explicações, lido com isso muito – sério, experimente viver com os meus pais por 21 anos, com certeza você também se habituaria. Meu problema é me sentir a mercê dos planos alheios. E isso não é culpa de ninguém, eu só estou vivendo uma fase meio vazia da vida, com muito vácuos e espaços livres. Meu problema mesmo é que eu fico com todas essas perguntas na minha cabeça e isso tira completamente a minha espontaneidade.

Não acredito nessa coisa de signos, outro dia alguém até se ofereceu pra traçar meu mapa astral, porque sou nascida no primeiro dia de sagitário com ascendente ainda desconhecido e um pé em escorpião. Viu? Nem meu signo é descomplicado. Mas tem uma coisa sobre sagitarianos que realmente tem a ver comigo, somos uma cambada de desorganizados. Eu não me importo com os horários, com ter ou não coisas marcadas com antecedência, eu estou cagando se me chamaram pra uma viagem de uma semana que começa amanhã – agora se me chamarem pra uma viagem de fim de semana, vai sábado e volta domingo, pode ter certeza que não rola. Não me importo de acordar uma da tarde com uma ligação inconveniente me dizendo pra ficar pronta em dez minutos para ir no Pão de Açúcar… Vou ficar pronta em quarenta, porque não saio de casa sem tomar café, puro e preto, se não fizer isso estrago meu dia com uma dor de cabeça intermitente. Eu não me importo porque meus dias são uma bagunça. É uma das poucas coisas na minha vida que eu consegui descomplicar.

Eu não sei, queria poder acordar um dia e não me importar com um monte de coisas. Deixar as preocupações todas no travesseiro e abrir um sorriso para o novo dia. É o maior e o mais chato dos clichês aquela coisa de: todos os dias são uma página em branco para você preencher. Mas como a grande maioria dos clichês tem lá sua pitada de verdade. Quero dizer, a nossa vida é como um livro que estamos rabiscando diariamente, é besteira imaginar que os traços e aventuras manuais das páginas anteriores não vão macular as seguintes, mas de qualquer maneira, elas estarão mais limpas que as do hoje, e talvez esse seja o melhor dos incentivos pra trocar da aquarela pro carvão, do monocromático para o super colorido, talvez seja o melhor dos incentivos para fazer diferente, para descobrir e para descomplicar.

Talvez eu não esteja fazendo o menor sentido afinal, mas dê um desconto, eu dormir por quatro horas na última vez que estive na cama – isso porque não era noite, eram seis da manhã – e agora, novamente no silêncio da madrugada, no conforto da minha cama dividida com meus dois espaçosos gatos, estou escrevendo isso tudo, querendo só jogar fora um peso da minha cabeça e do meu peito. Melhor parar por aqui, deixar a loucura pros meus sonhos.