Segredos de um amadurecimento conturbado

Quando eu entrei pra faculdade, quatro anos atrás, uma menina de 17 anos, achei que era aquilo, eu era definitivamente uma adulta. A parte engraçada é que a gente nunca sabe quantas coisas temos pra viver enquanto achamos que já sabemos de tudo. E sempre foi assim, antes dos 17 e após, até os 19.

Antes disso, tudo na minha vida era como um conto de fadas, uma história de livro infantojuvenil. E pior, sobre uma menina meio introvertida que levou mais tempo que todo mundo para fazer tudo aquilo que a maioria já havia feito. E pra mim era comum, porque a vida era assim no meu círculo de amigos.

Naqueles mesmos 17 eu comecei a sentir que tinha coisa demais não vivida. Não era que eu não soubesse sobre elas e suas consequências, era que eu não sabia como era viver aquelas coisas, e isso, aaaah isso, me corroía por dentro.
Num rompante entre meus 17 e 18 eu quis recuperar tudo, fazer tudo, viver aquelas coisas todas. Hoje ainda eu sofro as consequências das coisas que eu não vivi, e acabo por uma teimosia sem fim fazendo só para ter a experiência. Porque a verdade é que uma história contada por terceiros nunca será uma experiência. Um exemplo, um material de consulta, quem sabe, mas nunca uma história sua, com resultados seus.

Eu tenho uma amiga que também não viveu as coisas, mas ela é diferente de mim, em tudo, e talvez a coisa que mais marque a nossa diferença seja isso: eu fui atrás das minhas histórias, ela vive as dos outros. Talvez por isso ela seja mais bem sucedida que eu, ela não usou o tempo dela pra pequenas coisas passageiras, ela dedicou tudo a coisas realmente produtivas. Mas eu não trocaria de lugar com ela, nem por um segundo. Ela tem esse hábito engraçado de começar uma história dizendo: “Uma amiga minha…”, e aí vem a história de alguém, de quem ela supostamente tirou uma experiência, mas a verdade é que sempre que alguma coisa nova acontece, ela vem me perguntar o que fazer. Também pudera, quem imaginaria que viver uma coisa é tão mais complexo que analisar friamente de fora? Aos poucos eu tenho certeza que ela também descobrirá isso, mas espero que use sua sensatez, maior que a minha, para viver o que surge e não sair por aí procurando as loucuras dessa vida.

Lembro de um dia em que consegui convence-la de matar a aula e ir comigo para a casa de um amigo nosso. O fato é que, seríamos quatro pessoas, dois casais. Aquilo a apavorou de um modo que eu jamais poderia descrever. E até hoje, ela fala daquilo como se fosse a coisa mais louca do mundo, quando na verdade, foi apenas inconsequente. Desde aquele dia eu me empenhei em acumular histórias para contar pros meus netos – nunca vou contar essas coisas pra eles, mas vou contar pra alguém, e isso de certa maneira é muito valioso.

Memórias, nosso bem mais precioso. Partilhar memórias, o modo mais correto de expressar que confia em alguém.
Sobre memórias eu também notei que com o passar do tempo começamos a guardar segredos. Memórias que se tornam segredos e segredos que se tornam memórias – irritantes, presentes, ativas, porém memórias. Meu primeiro segredo foi aos 7 anos, meu primo me beijou debaixo da cama, minha mãe viu. Aquilo foi tão embaraçoso que se tornou uma memória que eu finjo não ter, mas na verdade, é só meu segredo mais antigo e empoeirado. A partir dali as coisas simplesmente foram se acumulando. Os segredos se tornaram coisas mais sérias. Quer saber uma coisa sobre segredos? Não os tenha.

Acho que ninguém planeja isso, mas meio que faz parte de crescer. As coisas que você vive acabam se tornando muito suas, as vezes muito sérias, muito complicadas, e você para de compartilhar com todos. E de repente, você passa a compartilhar pedaços com uns e não com outros, com outros e não com uns. Costumo dizer que para me conhecer de verdade seria preciso juntar todos aqueles que me conhecem e mandá-los despejar tudo o que já lhes contei. E eu odeio isso, apesar de essa ser a minha maior proteção. É só que, as vezes, eu queria que todos os segredos fossem embora, que eles não pesassem sobre mim cada vez que olho nos olhos de alguém.

Você diria: então conta tudo! – Eu não posso. Esse é um outro problema dos segredos, para se sustentarem, as vezes são envolvidos em meias verdades, que nada mais são que mentiras. E acho que ninguém no mundo gosta de saber que foi “enganado”, por mais que você tenha uma explicação perfeita, por mais que tudo possa ser justificado. E então os segredos ficam, cada vez mais profundos, mais antigos, menos acessíveis aos outros, mais pesados para você mesmo.

Toda essa volta porque eu queria dizer que no fundo, a gente nunca vai crescer o suficiente, nem viver o suficiente. Nunca seremos perfeitos, nunca seremos completamente transparentes. Logo ali, no fim da rua, tem algo completamente novo te esperando, e em coisas novas todos nós temos a mesma experiência. Amadurecer é parte de um caminho longo e tortuoso, que primeiro te mostra que você foi um adolescente idiota (como todos os outros), e depois que esse é um processo eterno, que te obrigará a deixar coisas para trás e a manter outras para sempre, até quando isso não for a sua vontade.

Então estou aqui com uma vontade insana de chorar, de contar tudo o que está acontecendo e aconteceu para alguém. Querendo muito que essa pessoa não me julgue, que não diga nada, que não espere nem cobre nada, eu só quero que ela me olhe nos olhos e diga: Vai ficar tudo bem! – e eu espero que essa seja a melhor mentira que jamais vou ouvir.

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