Um dia que fui viver e não vivi

Hoje eu acordei de uma noite em que não dormi. Saí dos pesadelos só pra me lembrar que acordada não está  muito melhor. Hoje eu fui comer e não comi, fui ler e não consegui – estou escrevendo, talvez porque seja a única coisa que consigo fazer, talvez porque seja o único momento em que posso fazer. Hoje eu estou meio estragada, meio imprestável.

Quando você passa por muitas coisas fortes simultaneamente é difícil da prioridade pra alguma delas. É como quando pegamos uma sequência de ondas ruim no mar, e elas ficam estourando na nossa cabeça de novo e de novo, e bem quando achamos que vamos conseguir tempo o suficiente, vem outra e te empurra de novo. Quando você finalmente consegue sair, tem água nos seus pulmões e areia na sua alma, o céu parece estar no chão, e o chão parece estar em lugar nenhum. É mais ou menos assim que estou, acabei de sair da água, estou tão tonta que nada é prioritário.

Descobri há algumas semanas que sou bipolar. Também há algumas semanas comecei o tratamento. É um alivio e uma tristeza ao mesmo tempo. Alguns dias atrás eu acordei e o mundo não era mais como eu conhecia. E ainda agora estou num debate, sobre se sou a mesma ainda ou não. Ver tudo com outros olhos, olhos mais condescendentes, menos mal humorados, me torna outra? Eu me sinto eu mesma, mas parece que todas as circunstâncias mudaram. Como um mágica as coisas se transformaram.

Há um debate meu comigo mesma sobre cada aspecto de mim. Minhas emoções por mais reais que sejam tomam proporções erradas, e eu me pergunto agora, sabendo disso; o que está crescendo corretamente e o que o meu distúrbio mental está contribuindo para crescer? Ainda não sei a resposta para essa pergunta, e muitas vezes, até o presente momento, fico contendo cada uma das minhas reações por não ter certeza, por não conseguir interpretar as situações como a maioria das pessoas pode fazer naturalmente.

Alguns dias atrás eu consegui a minha primeira vitória reconhecida sobre essa doença silenciosa. Pela primeira vez em minha vida – ou a partir dos meus 15 anos, segundo as pesquisas dizem ser quando o distúrbio começa a aparecer – eu consegui medir o quanto uma resposta poderia ser destrutiva. Isso para muitas pessoas pode parecer questão de lógica, mas não é assim que funciona para mim. Quando estou magoada, frustrada, triste, minhas emoções descem ladeira abaixo tendendo a raiva e a depressão. Nesse momento de queda meu julgamento fica completamente prejudicado e eu procuro um culpado, meu culpado se transforma em alvo e é sobre ele que vou deixar toda a angústia e todo o sofrimento.

Então naquele dia eu fiquei muito chateada, naquele dia eu me senti de algum modo egoísta injustiçada. E eu tinha uma resposta em mente, eu tinha um jeito de deixar meu “culpado” realmente culpado, eu tinha como magoá-lo, afrontá-lo ou ao menos irritá-lo. E bem ali eu percebi que isso não mudava nada, que jogar na cara dele o que ele havia “feito para mim” não mudava a minha própria culpa e na realidade só traria um assunto que eu mesma já havia deixado para trás porque aquele era o lugar dele. Era um “erro” perdoado.

Sentada aqui descrevendo essa situação me sinto uma idiota, porque provavelmente qualquer um que leia isso – se é que alguém anda lendo isso – vai achar que isso aí não foi nada, mas para mim foi um passo gigante. Eu fiquei extasiada porque pela primeira vez eu percebi que realmente podia ser diferente, e pela primeira vez eu tive certeza de que meus sentimentos estavam no lugar certo.

Então hoje eu me decepcionei comigo. Como um drogado em recuperação, preciso devolver a minha medalha de algum tempo sem recaídas, porque hoje eu tive uma recaída feia. Digo feia porque ela foi resultado de dias e dias da alimentação inadvertida de alguns fatos. Foi acontecendo sorrateiramente, sem que eu tomasse consciência, de um modo que pensei estar em pleno controle de todos os meus sentidos. Fiz uma coisa da qual me arrependo, mas como eu já aprendi nos últimos anos lidando com isso, se arrepender não muda nada, o estrago já foi feito. O que muitas vezes as pessoas não entendem é que quando eu magoo alguém, decepciono, faço qualquer dessas merdas que sejam, eu sofro com elas também, talvez até mais do que aquele a quem eu causei a decepção.

Eu estou sofrendo de muitas dúvidas agora, muitas e muitas. A única certeza que eu tenho, a única coisa que me dá algum chão e sentido, é também a raiz de muitos dos meus medos. O amor que eu sinto é para mim uma dádiva que sou incapaz de recusar, de abrir mão. O amor é a minha única certeza, e eu vivo dando um jeito de abalar a certeza dos outros nele.

E eu cometi outro erro. Eu achei que estava no controle de mim, das minhas emoções e ações. Eu achei que toda aquele contenção mesmo que incerta sobre o que era ou não natural, era uma forma de controle, uma que eu nunca tive, e que portanto era melhor que nenhuma. Acreditar numa mentira é a melhor maneira de fazer coisas erradas, e foi bem assim que eu cheguei aqui. Arrependida por muitas e muitas coisas que eu fiz em dois meses, coisas que eu coloquei a causa e a culpa em um objeto inanimado, em algo que eu não poderia magoar e que também não poderia me julgar. Dei o tesouro para o maior bandido. Dei o meu pseudo controle para aqueles que só poderiam me descontrolar ainda mais. Palmas para mim e minha inteligência limitada.

Mas eu vou continuar tentando. Vou devagar, sem ganância, sem apressar o tempo certo, o meu tempo, o dele, o do mundo. Vou tentar só por mais hoje. E vou fazer isso amanhã mais uma vez. E se não der certo eu tentei.

(eu sinto muito, muito mesmo pela raiva que te causei. sinto por ter talvez te dado uma prova de que posso fazer você me odiar. sinto ter desconfiado. sinto ter te desrespeitado. acima de tudo, sinto ter falhado comigo como pessoa, como companheira, como mulher. sei que não posso restaurar a sua confiança em mim, mas eu espero, em nome de todas as coisas que nós já vivemos, que isso se acerte, mesmo que eu e você não)

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